3 - Três: Toldo


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- Cheguei atrasado, mas sinto que cheguei na hora certa, Princesa Victória!
Eles deixaram a casa, um ladeando o outro na calçada.
- Meu bobo da corte chegou no cavalo branco!
- Eles estavam te chateando e o bobo sou eu?
Helena respondeu agradecendo com um olhar triste, escondendo os lábios, concordando com o magrelo.
- Sou, no mínimo, o cavalo do príncipe, sem sombra de dúvidas!
Ela não sorriu.
Novamente aquela droga de palavra-isca.
Sombra.
- Desculpe, Alex. Deve ser esse sol quentíssimo.
- Pior que hoje nem tem sombra...
Helena o encarou assustada. Estaria ele lendo os receios em sua testa?
- Estamos no equinócio de março. Hoje não é dia vinte? Nada de sombras.
Sim, ele estava certo! Por duas vezes ao ano, o sol é visto exatamente no topo do céu, provocando este curioso fenômeno de acabar com as sombras. A garota estava com os pensamentos ainda confusos, não unindo bem as palavras do raciocínio do amigo. Porém, algo ela captou bem. A possibilidade de livrar-se de sombras.
Aquilo lhe trouxe um alívio melhor que qualquer sombra de árvore.
Ela cogitou compartilhar com ele seus pensamentos, mas o rapaz estava ocupado brincando, gesticulando com as mãos. Olhando para o asfalto, ela viu o animalzinho feito com a sombra de suas mãos.
- Au!
Ela sorriu.
- Parece que hoje você tirou o dia pra me ajudar, doidinho.
- Se eu não existisse, o mundo precisaria me inventar.
- O que mais você sabe sobre sombras?
Pronto. Alex mostrou um sorriso bem longo, sentindo-se especial. Ele segurou a mão de Helena e a conduziu para debaixo do toldo de uma lojinha do bairro.
- Ora, ora. Na alegoria da caverna de Platão - começou ele, todo orgulhoso, imaginando-se em uma palestra na TED Talks - as sombras eram projeções distorcidas da realidade...
Ele observou aquela miniaula, mas aquela primeira parte falada lhe tomou conta. Talvez suas sombras fossem uma mera ilusão, como aquele elefante que por anos teve seu pé amarrado a uma árvore e não tenta fugir, mesmo que seu pé atualmente esteja amarrado ao pé de uma simples cadeira.
Se os receios fossem ilusórios, eles poderiam ser vencidos!
Mas e se não forem? Alegorias não são apenas metáforas?
-...Daí o povo da caverna assassinou o rapaz curioso. Fim. Foi bonito? Não, não foi. Foi profundo? Talvez. Falei de sombras? Pode apostar que sim.
- Entendi. Sombras devem ser evitadas.
- Talvez não, guria. Meu pai cantava uma música que dizia para descansarmos na sombra do Onipotente. Não ter medo ainda que andarmos no vale da sombra da morte. E nas mãos de um gênio, as sombras podem virar um simpático cachorrinho.
Agora Helena ficou confusa. E talvez ficasse ainda mais se soubesse como era o lugar mais sagrado do templo dos judeus, o Santíssimo Lugar, a morada de Deus, visitada apenas uma vez por ano, por apenas uma pessoa, o Sumo Sacerdote. Tratava-se de uma pequena salinha sem janelas, e que estranhamente ficava constantemente em total escuridão.
"O Senhor Deus disse que habitaria nas trevas", recita a Bíblia.
- Au! - Os dedos de Alex morderam o braço da menina.
Fugir das sombras em sua personalidade não tinha resultado em progresso algum.
Como podemos nos esconder de nossa sombra? Era preciso algo maior que um breve equinócio.
Talvez o "cavalo do príncipe" estivesse certo. Deve haver algo bom nas sombras, algo aproveitável. Era preciso identificar bem que coisas a incomodavam.
Passado alguns minutos, o Sol seguiu seu movimento aparente e as sombras foram reaparecendo no asfalto.
E feito Sumo Sacerdote que ousadamente adentrava a sagrada sala escura, Helena estava disposta a mergulhar em suas sombras, à procura de respostas.
O que ela encontraria? Como lidaria? Deveria mesmo ir sozinha?
- Obrigada, cachorrinho.
- Foi uma honra. Me paga um lanche?
Ela ficou leve por um instante, na verdade por uns dias. Mas sua jornada interior começaria justamente ao viajar para casa de sua prima Lara, quando seu ônibus se envolveu em um terrível acidente de trânsito.
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