2 - Dois: Anverso

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- M de quem? - insistiu Marcelo, imaginando-se fazer parte do mistério da menina.
Outra regra na brincadeira do copo era a obrigação em responder, mas Helena estava desconfortável pelo tormento daquele cenário sombrio.
Quando criança, ela temia os intermináveis minutos das noites sem energia elétrica. Era quando ficava imóvel, com o coração acelerado, apenas aguardando em silente agonia. Era indiferente abrir ou fechar seus olhos: a luz não cavalgava para seu castelo a fim de salvá-la. Ali era apenas ela e sua ansiedade. A terrível ansiedade, maior vilã e adversária que qualquer espírito movedor de copos plásticos.
Ela queria ter mais experiências, mas os meses não a surpreendiam. Era um eterno aguardar pela luz de resgate.
De certa forma, aquela escuridão invadiu sua vida incompleta. Seus desejos não-vivenciados fizeram morada ali, bem como seus sentimentos.
Simone a olhou, insatisfeita com a desistência da amiga, fazendo uma rápida pequena careta.
Isso provocou outra reação em Helena. A morena ao lado tinha um rosto lindo, mesmo fazendo aquela careta. Por Deus, como Helena estava ali desejando ser bonita ao menos como aquela careta! Ela tomou um susto ao pensar nisso. Era algo em sua sombra querendo revelar-se. Por um instante, sentiu raiva. Talvez de Simone, talvez de si mesma. Ela sabia que era um pensamento errado, mas aquilo estava ali presente. Fato.
O que mais estaria escondido naquela sombra?

Ah, sim. Um abuso. Uma injustiça. Um crime imperdoável. Coisas terríveis que moldaram sua personalidade.
Quando mais criança ainda, bastava cobrir-se com um lençol, fechar os olhos e a escuridão era vencida. Mas agora não há cobertores, nem inocência para negar a falta de luz. Helena agora tentava expulsar aquelas sensações, em vez de apenas negá-las ou escondê-las, mas o desgaste em sua mente era desestimulante, como um jogo invencível. Quando sombras chegam, não batem portas. Muito menos a porta da autoaceitação.
- M de maluca, isso sim! - Ricardo sorriu.
- Epa, muita hora nessa calma! - foi a vez de Alex falar, entrando na sala, atrasado para o jogo do copo. - Ninguém trata mal a princesa Victória!
Helena sorriu, enfim.
A chegada do magrelo surgiu como boa música, feito revisitar nas férias o mar. Aquilo a inspirou. Era hora de vencer um jogo. Não um de copo, mas de seu corpo. Não o de espíritos, mas de enfrentar seu próprio. Era tempo de abrir mão de lençóis e incompletudes. Era tempo de música e mar. Era a vez de sua paz.
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