Postagens

3 - Três: Toldo

::. - Cheguei atrasado, mas sinto que cheguei na hora certa, Princesa Victória! Eles deixaram a casa, um ladeando o outro na calçada. - Meu bobo da corte chegou no cavalo branco! - Eles estavam te chateando e o bobo sou eu? Helena respondeu agradecendo com um olhar triste, escondendo os lábios, concordando com o magrelo. - Sou, no mínimo, o cavalo do príncipe, sem sombra de dúvidas! Ela não sorriu. Novamente aquela droga de palavra-isca. Sombra. - Desculpe, Alex. Deve ser esse sol quentíssimo. - Pior que hoje nem tem sombra... Helena o encarou assustada. Estaria ele lendo os receios em sua testa? - Estamos no equinócio de março. Hoje não é dia vinte? Nada de sombras. Sim, ele estava certo! Por duas vezes ao ano, o sol é visto exatamente no topo do céu, provocando este curioso fenômeno de acabar com as sombras. A garota estava com os pensamentos ainda confusos, não unindo bem as palavras do raciocínio do amigo. Porém, algo ela captou bem. A possibilidade de livrar-se de s...

2 - Dois: Anverso

::. - M de quem? - insistiu Marcelo, imaginando-se fazer parte do mistério da menina. Outra regra na brincadeira do copo era a obrigação em responder, mas Helena estava desconfortável pelo tormento daquele cenário sombrio. Quando criança, ela temia os intermináveis minutos das noites sem energia elétrica. Era quando ficava imóvel, com o coração acelerado, apenas aguardando em silente agonia. Era indiferente abrir ou fechar seus olhos: a luz não cavalgava para seu castelo a fim de salvá-la. Ali era apenas ela e sua ansiedade. A terrível ansiedade, maior vilã e adversária que qualquer espírito movedor de copos plásticos. Ela queria ter mais experiências, mas os meses não a surpreendiam. Era um eterno aguardar pela luz de resgate. De certa forma, aquela escuridão invadiu sua vida incompleta. Seus desejos não-vivenciados fizeram morada ali, bem como seus sentimentos. Simone a olhou, insatisfeita com a desistência da amiga, fazendo uma rápida pequena careta. Isso provocou outra reaçã...

1: Um: Umbra

::. Logo o M apareceu. Helena se sentiu desconfortável com a situação. Não apenas por estar presenciando atônita um copo comum se movimentar por aquela lisa mesa de madeira, desafiando todo aquele ceticismo de minutos atrás, mas por aquela letra ser justamente um M. Ela retirou o dedo de cima do copo, infringindo a regra principal da brincadeira, frustrando Simone e os demais ali. - M de quem? - Marcelo perguntou sorrindo. Ricardo apagou a vela e ligou o interruptor. Se havia alguma entidade sobrenatural ali disposta a revelar segredos alheios, fora afugentada pela luz da sala. Ele também estava assustado naquela sexta-feira. M não é a letra de número 13? Teria um espírito movimentado aquele copo? A casa vazia de Simone também não ajudava muito. A nova moradora do bairro mal tinha retirado todos os objetos das caixas. Alguns móveis ainda estavam cobertos por lençóis, criando um ambiente assustador. Sem quadros ainda, a parede amarela estava sendo estreada com a sombra de Helena, ...